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Pierre Lévy ministra palestra e concede entrevista à Vogg

O filósofo da informação, escritor e professor do Departamento de Comunicação da Universidade de Ottawa no Canadá, Pierre Lévy, foi a estrela da CIRS 2010. Ele ministrou neste sábado (13) a última palestra do evento, cujo tema era o futuro da investigação em redes sociais e mostrou como é possível usar as redes para gerenciar e potencializar o conhecimento humano.

Levy iniciou a palestra falando que a evolução do homem foi possível graças a algumas habilidades de diferenciação dos animais, ou seja, a construção de diálogos (mundo de significados), a capacidade de contar histórias (percepção do tempo) e a organização do pensamento (relações de causa e efeito). Segundo o filósofo, os mitos são relatos e hoje eles são muitos. “Nós contamos histórias e a capacidade de guardá-las no acervo da humanidade chama-se inteligência coletiva”, disse.

Na palestra, Lévy situou o ciberespaço no desenvolvimento da comunicação humana a partir de cinco estágios:

- Oralidade: tradição oral;
- Escrita: memória, técnica autônoa da imagem;
- Alfabeto: universalização e digitalização da escrita;
- Imprensa: reprodução técnica do alfabeto e de imagens
- Ciberespaço: ecossistema de idéias e constituição da noosfera

Segundo Levy não é possível entender as redes sociais sem compreender a comunicação humana. É preciso desvendar o modo como as redes de pessoas se relacionam com redes de comunicação, materiais, do meio ambiente e como se relacionam a governos, valores, direitos, economia, etc.

O ponto crucial da palestra foi quando o filósofo mostrou que hoje o mundo de informações da rede mundial faz com que nos sintamos em uma espécie de segundo dilúvio, impossibilitados de abraçar o todo e definir o que é essencial. É por este motivo que ele tem se esforçado em pesquisar como cada indivíduo pode fazer a sua própria seleção, de modo a dar um sentido às informações disseminadas.

Pierre Lévy descreveu uma maneira de fazer a gestão de conhecimento pessoal. “Sem pensar no individual, não é possível fazer a gestão do conhecimento coletivo”, disse. Segundo ele, todo indivíduo que pretende encontrar lógica no caos deve passar pelas seguintes etapas:

- Atenção ao ambiente;
- Conexão com fontes valiosas (selectividade);
- Coleta e agregação de fluxos de informações;
- Filtragem manual e automática;
- Categorização, tagging, sistema de classificação;
- Gravação na memória de longo prazo. Não apenas no micro, mas na rede, pois é mais seguro e social.
- Síntese. Posts em blogs.
- Compartilhamento de informações em mídias sociais e conversas sobre o que foi pesquisado.
- Reavaliação, redefinição de prioridades, novas fontes.

Na palestra, Levy apresentou uma preocupação com a falta de um sistema comum de metadados. De acordo com o estudioso, a Internet levou bastante tempo para ser construída e hoje ainda não podemos dizer que ela evoluiu completamente. “Nós estamos no meio deste desenvolvimento”, disse.

Levy afirmou que no início houve a manipulação automática de símbolos (computador – código binário), depois os computadores puderam ser conectados (internet), em seguida surgiu a possibilidade de conectar documentos e dados (web) e hoje estamos caminhando para a consolidação da esfera semântica.

O estudioso afirmou que a web semântica pretende adicionar um novo nível que expresse a qualidade dos metadados, ou seja, uma linguagem universal, não falada por pessoas, mas por computadores na Internet. Esta nova possibilidade abrirá novos caminhos para a consolidação do conhecimento humano. As inteligências coletivas individuais serão somadas e compartilhadas por toda a sociedade, potencializadas com o advento das novas tecnologias de comunicação.

Entrevista com Pierre Lévy

Após a última palestra da CIRS 2010, a equipe da Vogg abordou Pierre Lévy. Ele aceitou conceder a entrevista, mas se mostrou arredio. De acordo com as organizadoras do evento, esta atitude é natural para uma pessoa que não está acostumada com a recepção calorosa do brasileiro.

O maior filósofo da informação não entende porque as pessoas gostam tanto dele, querem tirar fotos e fazer entrevistas. Apesar da dificuldade para entrar em contato com o estudioso, a Vogg conseguiu uma entrevista exclusiva. Confira.

Como o senhor vê as empresas que utilizam as mídias sociais para promover a marca?

As companhias fazem parte das mídias sociais assim como as próprias pessoas. Não vejo porque não divulgar produtos e serviços. O que temos em mente é que a Internet é um hipermetadocumento e muitas vezes, é difícil selecionar o que é essencial em meio ao dilúvio de informações. No entanto, já é possível criar mecanismos de gestão do conhecimento individual.

Qual é a sua opinião a respeito do branded content como estratégia comunicativa?

O branded content é uma ótima estratégia de marketing. Hoje, é natural e compreensível, na atual atmosfera sócio-econômica mundial, que as corporações divulguem a marca desta maneira.

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Steven Johnson aborda as potencialidades das redes sociais na CIRS 2010

A segunda palestra do dia foi proferida por Steven Johnson. O estudioso, autor de 6 best-sellers sobre intersecção entre ciências, tecnologia e experiências pessoais, falou sobre o poder das redes sociais na sociedade contemporânea.

Johnson iniciou o discurso falando das cafeterias londrinas do século XVIII. Segundo ele era neste ambiente que as pessoas discutiam, tomavam café e exercitavam a criatividade. “Estas cafeterias eram pólos intelectuais, onde surgiram as maiores inovações da época.”, disse. Segundo o estudioso, hoje é possível comparar estes espaços com as redes sociais. Porém, elas têm um poder muito maior de intervenção na sociedade do que tinham as cafeterias. Para Johnson as redes sociais surgiram como um espaço limítrofe entre o público e o privado, onde a velocidade da troca de informações é muito grande e maior ainda é a velocidade que elas chegam ao destinatário.

O twitter é uma das principais plataformas comunicativas da atualidade. Steven apontou como o principal defeito desta rede, em sua fase de implementação, que as suas políticas organizativas faziam com que o indivíduo “passasse de um grupo de conhecidos para uma quantidade enorme de desconhecidos”, disse. Este processo fez uma distorção do mapa da rede social e não agradou os usuários. “Tinham coisas que as pessoas não queriam dividir com as outras, mas o twitter não dava esta opção”, afirmou. As críticas instigaram a mudança das regras e hoje as pessoas tem usado esta plataforma de maneira ainda mais criativa.

De acordo com Johnson sobram exemplos de pessoas que conseguiram inovar na utilização das redes sociais. Apesar de elas terem sido criadas, inicialmente, para dividir informações irrelevantes, como o que o seu amigo comeu no café da manhã, hoje isto mudou. Estas inovações foram possíveis graças à interface de programação aplicativa (API). Em outras palavras, uma linguagem comum de programação que permite a criação de aplicativos para aumentar as potencialidades da plataforma.

A última invenção foi o twitter map (twittermap.tv) que mostra dados geográficos de onde a pessoa está enviando a mensagem. Ver o funcionamento da plataforma é emocionante, pois é possível ter certeza que o mundo está se comunicando o tempo todo e estabelecendo ligações entre pessoas de todos os continentes.

Outra rede social inovadora apresentada por Johnson foi a foursquare (foursquare.com). Trata-se de uma combinação de rede social com game. Funciona da seguinte maneira: uma pessoa chega em um determinado lugar da cidade ou uma cafeteria e envia uma mensagem para os amigos (via sms) para avisar onde está. O programa tem um sistema de mapeamento via satélite onde é possível contabilizar quantas vezes aquele indivíduo esteve em determinado lugar. Quem for mais vezes ganha medalhas, se torna o “prefeito” e em alguns casos pode até ganhar algo promocional.

De acordo com Johnson o foursquare é um sistema que beneficia as pessoas e suas relações pessoais, os empresários que tem a chance de estabelecer contato rápido e fácil com seus clientes e, por fim, fazem com que os indivíduos tenham um incentivo maior a viver a cidade e não em um mundinho apenas virtual e isolado. Steven deixou claro que nada disso seria possível se os códigos não fossem abertos.

Steven Johnson contou um episódio que ilustra muito bem o funcionamento destas mídias sociais. Imagine a situação: uma conferência importante, uma jornalista atrevida e um homem famoso. No palco a jornalista começou a flertar com o homem se exibindo e fazendo perguntas indiscretas. A platéia ficou enfurecida, mas ninguém esboçou qualquer reação exterior até o fim da convenção. No entanto, internamente estavam explodindo de tantas emoções.

Os participantes da conferência, insatisfeitos com a atuação da jornalista abriram seus laptops e se conectaram ao twitter. “Foi por meio de uma conversa silenciosa em tempo real que os participantes começaram a criticar a jornalista e falar sobre toda aquela situação constrangedora”, disse. Segundo o estudioso eventos como este são impressionantes e eram improváveis há alguns anos atrás.

Steven falou que o twitter é uma plataforma que no início servia para informar sobre o que o amigo comeu no café da manhã, mas hoje serve como fonte de rica de informações e o mais interessante é que os usuários escolhem de onde elas vem. “Eu leio twitts de grandes jornais, mas tenho prestado mais atenção às indicações dos amigos sobre leituras”, disse o estudioso. Johnson usa também o twitter quando surge alguma dúvida sobre algo corriqueiro. Ele solta a pergunta no twitter e em menos de 5 minutos voltam inúmeras respostas.

Segundo Johnson, o twitter hoje ganhou proporções muito mais significativas. Um exemplo foi a arrecadação de doações para os sobreviventes do terremoto do Haiti através de SMS. Bastava um comando no celular para que 10 dólares fossem descontados da conta telefônica do indivíduo. A mensagem de solidariedade foi disseminada na plataforma e em pouco tempo o twitter arrecadou 30 milhões de dólares para aquela população.

Para Johnson é interessante pensar na reunião de pessoas em uma determinada mídia social agindo em prol de uma ação grandiosa. No entanto, ele instiga a utilização destas redes para resolver também problemas locais, pequenas emergências que estão na esquina de casa, como a necessidade de cobrir buracos nas ruas, reformar um parquinho, montar uma biblioteca pública.

Na conferência, Johnson comentou a respeito de outra rede social denominada kickstart (kickstart.org) onde as pessoas podem fazer pequenos patrocínios para que um grupo grave o primeiro disco, uma artista plástica possa terminar uma obra, uma comunidade carente possa montar um centro de aprendizagem. As pessoas entram no site, preenchem um formulário dizendo que vão patrocinar determinada atividade, porém o dinheiro só sai da conta destes indivíduos quando se completam 5 mil dólares de “investimento”.

Esta quantidade de dinheiro é um indicativo de que tal obra pode ser viável. É só então que, de fato, as pessoas fazem a doação. “O kick é uma forma de financiar pequenas causas e esta é a mais bonita manifestação da atitude cívica“, disse. Johnson afirmou que começa a pipocar a preocupação das redes sociais em resolver também os programas micro. Esta atitude, na opinião dele pode tornar as cidades cada vez mais sustentáveis. É a comunidade local se reunindo a partir de uma rede social virtual em prol dos seus companheiros.

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Clara Alvarez ministra palestra sobre análise de redes sociais

A analista de sistemas e CEO da NeuroRedes, Clara  Alvarez, ministrou a primeira palestra desta sexta-feira (12) na CIRS 2010 a respeito a análise de redes sociais.

Ela explicou quais são os mecanismos e estratégias utilizadas para  definir as relações entre as pessoas em determinado grupo. Segundo a pesquisadora, são nas interações entre as pessoas que é possivel perceber como elas transformam e são transformadas em determinado contexto. “Esta conexão não é aleatória”, diz. Clara acredita que os indivíduos têm uma posição ativa no processo comunicativo e interpretam uma mesma mensagem de maneiras diferentes.

A análise de redes a qual ela se refere é um resgate de fenômenos de grupo. Estuda-se as estruturas e dinâmicas das redes sociais e sua evolução ao longo do tempo. “A análise é aplicavel em qualquer situação”, diz. Segundo a especialista pode-se ter como base um vínculo profissional, de família ou até mercadológico. Esta pesquisa segue determinados passos:

- Indentificar a rede de pessoas
- Estruturar a pesquisa
- Definir as ferramentas a serem utilizadas
- Estabelecer os programas de conversão de dados
- Fazer cálculos e desenhos
- Analisar os resultados
- Identificar os problemas
- Estabelecer estratégias para resolve-los
- Verificar resultados a partir de uma nova pesquisa

Em uma relação de trabalho, uma empresa pode encomendar uma consultoria para estabelecer o nível de interação entre as pessoas na organização. Indentifica-se os problemas que esta empresa enfrenta e propoe-se soluções. Por exemplo, pode-se identificar que um indivíduo está isolado na rede, ou seja, quase não estabelece relações dentro da organização. “Identificado o problema pode-se criar estratégias para mudar esta situação e tornar a empresa mais produtiva”, diz.

O momento de clímax da palestra de Clara Alvarez foi quando ela propôs uma dinâmica. Pediu que os espectadores formassem um “A” com o corpo utilizando o espaço do auditório. Ela usou o exercício para mostrar como é poderosa a inteligência coletiva. Segundo a estudiosa, pequenos estímulos podem provocar grandes mudanças no mundo. “A impotência que muitas vezes sentimos frente ao mundo é ilusão”, diz. Ela concluiu afirmando que cada um de nós tem um poder absoluto de transformar o ambiente, e a análise de redes pode ser uma maneira rica de fazer isto.

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Aprendizagem em rede na CIRS2010

A terceira palestra da CIRS 2010, ministrada nesta quinta-feira (11), às 15h teve como tema os sistemas socio-educativos em rede. Estavam presentes Augusto de Franco, José Fares, José Pacheco e Luis Fernando Guggenberger.

O atual diretor-superintendente do SESI-PR,  José Fares iniciou o debate se posicionando a respeito da atual configuração da escola brasileira. Segundo ele, há uma tendência em destinar a esta instituição e aos professores toda a responsabilidade pela educação dos alunos. “É uma pressão muito grande para os educadores”, afirma. De acordo com ele, a escola precisa rever sua posição e o seu papel na sociedade.

Inspirado nesta idéia, o SESI-PR criou um projeto que pode alterar substancialmente a configuração da escola. A idéia é fazer com que elas tenham o hábito de trazer aos alunos informações que tenham a ver com a vivência deles. Ou seja, é preciso aplicar o que ele chama de arranjos educativos locais (AEL) – são clusters de aprendizagem ou aglomerados locais de pessoas e organizações que se formam criando ambientes favoráveis às interações educativas.

De acordo com Fares, muitas vezes os alunos entram na escola e não sabem nem o que estão fazendo ali”, diz. É preciso, portanto, criar agendas locais de estudo e tentar relacionar ao máximo os conteúdos programáticos com experiências da localidade para que os alunos entendam onde podem aplicar determinado conhecimento. Os professores tem que vencer um grande obstáculo neste sentido que é passar por cima de paradigmas já consolidados.

O educador português, José Pacheco, também defende os AEL e ainda afirma que eles podem ser os responsáveis pela mudança estrutural da sociedade. Pacheco salienta, no entanto, que o Brasil é um país que tem o costume de copiar as culturas estrangeiras. Ele alerta que isto é muito prejudicial para o desenvolvimento da escola. Assim, cria-se uma nova possibilidade de trabalho nos AEL: trazer de volta a conexão com a cultura local.

Os palestrantes finalizaram o debate afirmando que já existem bons exemplos de escolas brasileiras que trabalham com esta idéia de aprendizagem em rede, porém ainda há muito o que fazer.

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